aquela da menina na rodoviária.

– fiu , fiuuiu, fififi, fiuiui…

– (Ué, esse som… eu conheço essa música…)

– fifififi, fiuiuiuiuiiiiiii.. fifi… fiuiu…

– (Esse cara ta assoviando Queen! Nossa, um cara conhece Queen nesse fim do mundo… e é minha música preferida! Nossa… Ele ta de camisa preta, deve curtir rock … olha aquele cabelo, bem do jeito que eu gosto .. bagunçado mas em ordem … tem barbinha… é bonitinho… ele anda meio estranho, eu também ando estranho por ai… calção, tênis e sem meia… nossa… ele ainda ta assoviando… ele é lindo!)

– fififiu fiu iuiuiui fiufiufiufiuiu…

– (Quem é esse cara? Nunca vi ele por aqui… será que é amigo de alguém que eu conheço?  Deve ser do grupo daquele João do 3º ano. Nossa, a gente iria se dar super bem… ouvindo Queen.. provavelmente ele curte um bocado de banda legal… será que ele escuta Free? É difícil alguém escutar Free… Ai meu deus ele olhou pra mim! Disfarça… olha pro lado… olha pra cima… isso…. Ele ainda ta olhando!! Vou levantar e mostrar minha camisa do Queen.. espera, esse blusão por cima ta atrapalhando… ai… enroscou com o fone de ouvido.. aiii minha orelha! engatou no brinco, droga … espera, ele não ta mais olhando… nossa como esfriou – agora sim, vou levantar, fazer de conta que vou ali naquela lojinha, vou mostrar minha camisa do Queen “sem querer” e ele vai olhar e vai se ligar que eu curto também… ele nem ta me olhando mais … ele ta ainda assoviando? Que som é esse? A música? Que música é essa agora? Não importa… vou passar perto…  isso, com calma …. …. PERÊRE REEEIN PÊRERÉIN ahhh celular de merda, esqueci de colocar no silencioso .. que vergonha… ele ficou olhando pra mim, droga droga…. “Alô! Que mãe? Sim, já to chegando… Não mãe, eu não fui no mercado… depois.. ok… não.. sim… ok …”  Droga, que vergonha esse celular… Ele ta me olhando… Eu queria um namorado assim, que gostasse do que eu gosto. A gente ouvindo Queen, lendo, rindo juntos… aiai … Férias na praia, eu e ele! Depois a gente casava e ouvia essa músicas com nossos filhos e… ele ta levantando! ELE TA VINDO AQUI! Ai meu deus…. aiaia vou enfartar… calma .. calma… ele ta vindo… respira…)

– Oi

-Oi … oi … ahm… tudo bem?

– É, vem cá … você ta sozinha aqui?

-(AI MEU DEUS! ELE ME AMA!) Ahm, sim… hihi to sim, porque?

– Então cala a boca e passa pra cá esse celular ai barangona! E esse fone de ouvido também. É um assalto!

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aquela da menina na rodoviária.

aquela do mundo paralelo.

Fui dormir. Normalmente eu não sonho. Durmo como uma pedra. Mas aquele dia…

Lembro que eu acordei e o sol ainda não estava totalmente a vista. Talvez nascendo pensei. Pensei errado.Virei para o lado e vi como que estampado no relógio digital 18:23. Levei um susto. Pulei da cama, olhei o celular, a mesma coisa, corri para a janela e então percebi: era fim da tarde. Não poderia ser! Eu nem tinha ido trabalhar!

Deveria ainda estar sonhando e tudo mais. Foi quando a campainha tocou, sai correndo como um louco para abrí-la, e foi quando levei um susto maior ainda. Era uma mulher com uma criança no colo, eu não conseguia visualizar o rosto da mulher. Parecia desfocado, mesmo ela estando a um metro de mim. Mas a criança sim, era pequena, 2 a 3 anos. Loira, olhos castanhos e tinha um sorriso lindo. Ela me fitava com uma simpatia. Aquele sorriso… lembrava alguém. A mulher não falou muita coisa, mas a única frase que entendi foi

” – As nove, amanhã, passo pega-lá. Até mais.”

E foi assim que meu dia começou. Acordei no final do dia, com uma criança que eu não conhecia, uma mulher sem rosto e como se não bastasse tudo isso, aquele clichê básico surgiria, algo ainda estava por vir:

– Papai!

Levei um susto. Cai. Sentei. Rodopiei. Ela me chamou de pai! Porra! o que é isso? Por um momento olhei em volta, pedindo em vão alguma resposta. Mas ela me lembrava alguém… Aquele sorriso, aqueles olhos. E ela não tinha nada haver com aquela mulher de antes, mesmo que eu não tivesse visto seu rosto, mas era algo… que eu não sabia o que era. Por instinto, peguei-a no colo e me senti feliz. Me senti estranhamente protegendo alguém. Junto a ela, havia uma carta.

Não lembro de a tal moça ter me dado. Abri a carta e levei outro susto.
Assim, em instantes descobri quatro coisas:

1) Eu era pai de uma criança de 3 anos, ela se chamava Júlia.
2) Eu era separado da antiga mulher; Mulher? Eu tinha mulher?
3) Era o “final de semana com o papai”
4) Era meu dia perfeito.

No final, com uma letra meio caída e bem arredondada estava escrito:

“Aproveite. Faça simplesmente o que achar que tenha que ser feito. Pouco tempo será, e
só. Quando sentir que nada mais falta, perceberá o final. Mas será do seu jeito. Do seu
jeito”.

Ainda estava ensolarado o dia. Estava quente, mas com aquela brisa de fim da tarde. Normalmente nesse horário eu saio do trabalho e volto para casa. Sempre foi assim. Casa, trabalho, casa… por anos a fio. Sempre morei sozinho,
nunca tive relacionamentos que duraram mais que cinco meses. É, eu sempre conto eles. Parece fato, cinco meses, termina. Nunca reclamei, muito; sempre achei melhor pensar assim: “Não faz meu tipo”, “Ah, ela não gostava de Caetano..
Veja bem, não gostar de Caetano? Antiquado? O Caetano?”, “Ela gosta de Los Hermanos? Pfff”. Eu não gostava de festas. Odiava multidão. Odiava mais ainda o calor do mês de dezembro. Odiava o Natal e fim do ano. Mas eu gostava de
outras coisas sim, mas não sei por que, elas sempre pareceram menos importantes do que as coisas que eu realmente odiava. E então, durante anos, minha vida foi isso, e agora, eu sou pai, tenho uma criança de 3 anos nos meus
braços, me olhando com uma cara que mistura cinismo e algo como fome e sono, se é que pode existir descrição assim.

Comecei à olha-la, até então, o que poderia ser simples, se tornou a coisa mais estranha do mundo. Ela sorriu e me abraçou. Eu não sabia o que fazer. Se colocava ela no sofá, ou se desse um abraço; não, eu posso quebrar uma costela
dela; se desse um sorriso; muito babaca; e se eu pedisse algo?; mas ela fala? com 3 anos?; Simplesmente fiquei ali, parado. Tempo depois, coloquei-a no chão, e procurei algo para dar a ela de comer. E lá se iam meus chocolates.

Eu nunca gostei de crianças, sempre me assustaram. Quando havia alguma no recinto, eu ficava quieto, não fazia contato visual, não me mexia, não espirrava, e respirava o mínimo possível para que ela não soubesse que eu
estava li. Nunca deu certo. Eu era o primeiro que a criança olhava, o primeiro que ela se dirigia quando estava engatinhando, o primeiro que ela apontava, o primeiro que ela chegava perto, o primeiro que ela dizia “Tio”, e eu ali, fazendo que estava lendo o jornal enquanto olhava ela por cima dos óculos; tentando ser esperto, não mostrando que estava dando atenção a dita criança; em uma atitude imensamente idiota para um adulto; ela sempre estava me olhando.
Sempre.

Depois do quarto chocolate, Júlia pronunciou algo como “Aba” ou “haba”. Peguei um copo, enchi de água e dei a ela. É claro, ela derrubou tudo. Dei outro copo, ela bebeu, e sorriu. Gargalhou alto. Eu comecei a rir, não sei por que. Ela
riu mais e eu fiquei ali. Aquele sorriso…

Foi quando tocou a campainha. O que mais poderia acontecer hoje? Quando a abri , algo que à tempos não acontecia, aconteceu. Frio na barriga.

Sempre quando sinto isso, é relacionado a multidões, conhecer pessoas e tudo aquilo que um tímido em potencial sente. Mas quando relacionava-se a algumas pessoas, mulheres, que era o que estava acontecendo, o significado era:

“Ahh, é ela…”

Era loira, quase da minha altura os seus cabelos estavam presos com um laço. Vestia calça jeans, tênis e uma blusa regata branca. Eu nunca esqueci sua voz. Ela dizia tão bem algumas palavras, tipo “Você”, “Árvore”, “Vento”,
“Polícia”; com aquele “u” acentuado no lugar do “o”; “veremos” e tantas outras. Eu sempre me perguntei o porque ficava reparando nisso nas pessoas, mas a voz dela…

Ela sorria. Ela tinha um sorriso meio… meio… um sorriso muito lindo por assim se dizer. Um daqueles sorrisos que qualquer pessoa pensaria em escrever um poema sobre ele, ou não…

Ela foi entrando e dizendo: – “Quase não chego a tempo, ônibus atrasado e tudo mais. Mas o passeio hoje vai ser muito bom. Achei estranho você me convidar.” e sorriu. Aquele sorriso…

Ela andou, foi até a criança, sentou do seu lado. No apartamento, o cheiro do seu perfume se misturou com os de milhares de incensos que eu já havia acendido pela casa por anos a fio. Mas o dela ficou acima de tudo.

Júlia sentou-se no seu colo, como se já a conhecesse há tempos. Começou a brincar com ela e as duas pareciam amigas de longa data. Eu fiquei da porta, observando aquilo. Era estranho. Uma eu nunca tinha visto na minha vida, e ao
mesmo tempo, parecia que conhecia desde sempre; e a outra, mesmo sabendo de tudo, ou pelo menos de quase tudo, naquele momento, parecia outra pessoa. Parecia que aquilo estava indo, estranhamente, de um jeito que eu sempre quis,
mesmo nunca tendo imaginado isso.

Reli a carta: “Aproveite. Faça simplesmente o que achar que tenha que ser feito. Pouco tempo e só. Quando sentir que nada mais falta, perceberá o final. Mas será do seu jeito. Do seu jeito”.

Do meu jeito. Será? Quando iria divagar mais a respeito, a mulher disse:

– Então, vamos? Penso que primeiro devemos ir ao parque. Horário de
Verão tem suas vantagens, pelo menos algo de bom ele tem de ter. Levamos
Júlia comer algo lá mesmo, andamos pelo parque. Ela vai gostar, ela sempre
gosta de…”

E ela foi falando, foi pegando Júlia no colo, como se fosse normal aquilo, como que se aquela cena, já tivesse se repetido por várias e várias vezes. Mas ela falou que achou estranho eu convida – lá, pensei. Então ela não vinha muito
aqui, não saia muito comigo e muito menos com minha “suposta” filha. Nada estava se encaixando. Pensei em parar tudo, perguntar o que realmente estava acontecendo, quem era ela? Quem era essa criança? Que carta era essa?

No momento em que iria abrir a boca, algo me parou. Parecia que ela foi tampada, não fisicamente, mas algo me fez ver que aquilo era o que menos importava. Que aquilo era ínfimo perto do que estava acontecendo, que eu teria
muita coisa para pensar e principalmente, muita coisa a mais para viver. Naquele momento eu percebi, que aquele dia poderia ser sim um dia que eu sempre quis.

Saímos, Júlia no colo dela, eu ao lado. Passamos na frente de uma loja de discos de vinil. Achei estranho, nunca vi ela por ali. Acima, duas caixas de som entonavam: “Come down off your throne, And leave your body alone…” na voz de
Clapton.

Júlia olhou para aonde originava o som, e sorriu. Sempre gostei dessa música.

Passamos por lojas de brinquedos que nunca tinha notado. Júlia parecia atenta a tudo, o tempo inteiro, e sorria. Sorria muito. A mulher sorria junto, gargalhava alto e eu ficava ali, observando-as e com um estranho sentimento.
Passamos por algumas ruas, algumas calçadas, olhamos vários pássaros sobrevoando algumas árvores ao longe. O sol brilhava intensamente, como se fosse fazer aquilo pela eternidade, mesmo sabendo que em poucas horas iria
dar o lugar para a lua. As pessoas caminhavam sem rumo, pareciam que estavam ali somente para servir de fundo ao nosso passeio.

Chegando ao parque, fomo ao zoológico que existia ali. Sempre gostei daquele parque, não necessariamente por ser um parque, mas sempre me interessei pelos animais que ali estavam. Cervos, macacos, pássaros, insetos…
Eram inúmeros, mas o que sempre me chamou atenção foi apenas um deles, um Gorila.

No centro do parque existia uma fonte, não que realmente ela existia na vida real, mas eu sempre quis que ela estivesse ali, e naquele dia, a fonte estava exatamente aonde eu sempre imaginei. Ao redor dela, como se fosse uma
fogueira onde todos se sentavam ao redor dela para se aquecer e contar histórias, se colocavam várias jaulas, de diversos animais.

O Gorila era um deles, ele já era velho no parque, desde a primeira vez que fui ali, ele sempre existiu. Na maioria das vezes sentado, olhando fixamente para algo, as vezes andava para um lado e outro, sempre sério, intocável e
imponente em sua jaula, mas ao mesmo tempo parecia acuado, um tanto triste. Sempre gostei dele, nunca pareceu que alguém poderia saber o que ele estava para fazer, vivia ali, talvez até gostasse, mas mesmo estando preso, poderia
estar aonde quisesse. Sempre pensei assim.

Estranhamente, Júlia se interessou por ele, falava toda hora “acaco” e apontava para tal. Era estranho, a menina parecia compartilhar vários dos meus gostos, até preferindo Pepsi ao invés de Coca, mas talvez isso, pensei eu, fosse alguma influência da tal “mãe sem rosto”.

Ficamos vários minutos olhando para a jaula do velho gorila. Parecíamos que estávamos lá, os três, pelo mesmo objetivo, divagando sobre as mesmas coisas. A mulher estava no meu lado, eu queria abraçá-la, minha barriga ainda
tinha aquele “frio”, principalmente quando ela olhava para mim. Sempre nos olhos. Sempre sorrindo. Aquele sorriso…

Depois de um tempo, fomos caminhar pelo parque. Júlia arriscava alguns passos logo à frente, nós dois íamos atrás, cuidando de qualquer queda que ela certamente teria.

Andamos por várias horas, o sol estranhamente não diminuíra de intensidade. Íamos conversando sobre música, estudos, trabalho.. Ela me contava os benefícios de certas comidas chinesas para a saúde, falava da
importância do cálcio e das proteínas, ela falava de um jeito engraçado “proteínas”. Fiquei sabendo que o brócolis previne algo como osteoporose e úlceras. Me contou das desavenças com amigas, que gostaria de viajar sem
destino – “simplesmente ir” disse ela; que preferia chocolate preto ao branco, que acordar cedo é a pior coisa do mundo, que preferia Caetano do que Gilberto; aqui eu tive que concordar; que prefere dormir com chuva, que se
irritava facilmente com as pessoas mas não saberia nada se não fosse as mesmas, que acha que deveria gastar o dinheiro em coisas mais úteis, em vez de simplesmente roupas e comidas.

Eu achava tudo engraçado. Ela me fazia bem. Ela era alegre e eu nunca gostei muito de pessoas alegres, sempre me passaram falsidade: “Nunca alguém pode ser alegre todo dia” pensava eu. Mas dela vinha algo diferente, não sei se
era o tempo, o ar, o fim da tarde, mas sei que era ela. Esqueci de tudo que me incomodava, naquela hora eu simplesmente andava e me sentia bem. Ela era tão leve.

Encontramos um lugar com várias árvores e ali sentamos. Compramos cachorros-quentes e me pareceu a melhor comida do mundo. Ali perto avistei um rio, onde várias pessoas caminhavam em volta e andavam de pedalinhos no
seu interior. Ao nosso lado, estava sentado um homem. Cabelos compridos, calças e camisa preta empunhando um violão.
Ali sentado, olhei para as duas e pensei na carta. Seria mesmo? Que ali seria o meu dia perfeito? Que ali, por pouco tempo, viveria o que realmente sempre quis? Mas eu nem gosto de cachorro-quente. Mas tudo era perfeito. O
homem do violão começa a tocar os primeiros acordes de “Black Bird” dos Beatles.

Pouco depois, já seguindo as ruas para retornar para casa, comecei a pensar no que realmente seria meu dia perfeito.

Sempre pensei em algumas coisas: ter muito dinheiro, tocar relativamente melhor gaita de boca junto e melhor que o Jammes Cotton, não pagar absolutamente nada no que iria comer naquele dia, não trabalhar, ser
promovido, Juliane Moore me ligando pedindo como estou; mas nada daquilo estava acontecendo. Era tudo muito simples, muito normal. Eu nem ao menos sabia o nome da mulher que estava do meu lado, mas eu conhecia ela. Eu conhecia de algum lugar. Eu já tinha conversado com ela, já tinha feito rir, mas não lembrava quem era. Eu nunca me imaginei pai, ainda mais sendo pai separado. Nada daquilo fazia sentido, mas tudo se encaixava de alguma forma.

Chegando em casa, Júlia já adormecia no meu colo, levei-a até meu quarto e notei que existia um berço do lado de minha cama. Nem perdi tempo tentando encontrar algum motivo de aquilo estar lá. Deitei-a e beijei-lhe a face,
ela meio que agradecendo deu um pequeno sorriso, mesmo dormindo. Fiquei observando-a por um bom tempo. Uma filha. Será que sempre quis ser pai mas nunca soube? Será que aquela mulher na sala, seria o que faltava para uma
família real? Nunca gostei da palavra família, sempre me pareceu “família” demais, ficar falando e caracterizando-a por ai, como se fosse elemento chave na felicidade das pessoas. Nunca gostei de generalizar. Mas por um momento, ali,
parado e olhando para ela, eu quis ter uma, e pensando bem, eu estava tendo
uma naquele momento.

Voltei para a sala e a mulher estava sentada no sofá, me fitando. Estremeci. Fiquei parado diante dela, sem saber o que fazer. Só pude devolver o olhar. Ela levantou, foi até mim e me abraçou. Ficamos ali, parados por vários minutos. Eu não sabia bem o que fazer, mas sabia que aquilo tinha de ser assim.

Como parecendo premeditado, eu já não estranhara mais nada desde então, meu velho aparelho de vinil, sozinho, começa a embalar uma canção. Chet Baker declama “Come Rain or Come Shine” parecendo que estava ali, perto dos vasos de orquídeas, cantando exclusivamente para nós. Começamos a dançar. Nunca fui bom nisso, mas me sai bem.

Acompanhando a melodia da música, dançamos e a sala onde estávamos sumiu, o mundo pareceu ser apenas “algo”. Deslizamos pelo chão, como se fosse a única coisa que importava. Esquecemos do tempo, vagamos sobre ele
sem ao menos nos dar conta que aquilo poderia ser apenas um sonho.

“I’m with you always. I’m with you rain or shine…” Dizia Chet.

Eu à olhava e me sentia feliz. Ela me fazia tão bem e sorria. Aquele sorriso. Naquele momento eu percebi que sempre a quis e que sempre a procurei em todos os cantos, em todas as conversas sobre a mulher certa, em todos os sonhos e todos os segredos. Ela era o para sempre, o ar que nunca cessa.
E eu a beijei. Ela era tão leve.

“…Pouco tempo e só. Quando sentir que nada mais falta, perceberá o
final. Mas será do seu jeito. Do seu jeito”.

E nada mais parecia que poderia mudar aquilo, que poderia melhorar algo, era tudo o que inconscientemente eu já quis. Como uma nuvem quando encobre aquele sol, tudo escureceu. E tudo acabou.

Acordei em minha cama, olhei para o lado que já não mais existia o berço de Júlia. Pensei em ir para a sala, correndo, mas sabia que não encontraria nada. Fiquei deitado, fitando o teto. Não somente estava feliz, mas sabia que algo
poderia ser feito, que sempre a uma outra direção a se tomar.

Levantei, fui à sala e segui até a sacada. Lá fora chovia fraco.
Vindo de uma janela do prédio vizinho, Sinatra cantava:

“…So I’ll be the fella, the kid with the small umbrella…
If you will be the girl, the girl who saved her love for a rainy day…”

aquela do mundo paralelo.

aquela do Van Halen.

“Eu era um misto de George Harrison com David Coverdale. Ai eu usava tipo uma calça justa… não… uma calça jeans normal, preta… não, azul… não, preta é melhor; Eu olhava por cima da platéia, cantava tipo o cara lá do Oasis… cara, como é o nome dele… aquele que canta com as mãos para trás.. parece um garçom.. foda-se… eu cantava do tipo do Coverlade mesmo. Mas o Coverlade no Rock in Rio era muito estranho… mas ele era foda. Então eu cantava igual o Coverlade de hoje em dia, mas sem parecer um velho reumático. Tá vamos ver… Ai a banda tocava covers. Ou música própria? Não, ela não ia gostar de músicas próprias. A gente tocava covers… Covers dos Beatles, do Creedence… Por falar nisso esqueci o disco no carro… A gente tocava Scorpions.. não, Scorpions não… A gente tocava aquela lá… sabe… puts esqueci. Aquela do Yes. Van Halen! Isso! Vai ser Van Halen. Eu estava lá, no palco, tocando guitarra com o estilão do Harrison e cantando igual o Coverdale a “Can’t Stop Loving You”. É bonitinha. Ela ia curtir, ia ficar ali no placo me olhando, fazendo umas caras e tomando Sprite. Ai eu cantava “…I can’t stop lovin’ you No no matter what I say or do…” e ai ela me olhava e…

– Porra! Chega! Que Merda… que melação.

– AHHHH! Porra que susto! Cacete! O que você ta fazendo aqui??

– Cara, você era melhor uma vez. Imaginava coisas melhores… Van Halen? E é o Sammy Haggar ainda, não gosto dele.

– Como é que você entrou na minha cabeça?

– Sei lá, só aconteceu. Faz tempo que eu sei que você fica pensando lorotas ai sobre mim antes de dormir. No início, eu até gostava. Era bonitinho. Eu pensava “puts, esse maluco gosta de mim. Ele ia me salvar do Godzilla, em plena ponte Hercílio Luz vestido de Batman ou coisa assim…”

– Ta, é que aquela época eu assisti muito filme do Godzilla, e daí? Eu ia te salvar mesmo. E não era fantasia do Batman, era do Pantera.

– Da na mesma… Mas eu to aqui pra dizer que você precisa parar com isso. A gente se gosta sim; to certo que eu nunca te falei isso e fico botando minhoca na sua cabeça, mas porra… Van Halen?

– Ué? Eu gosto, é uma boa música. E outra, eu to aqui na minha cama, pronto pra dormir. Trabalhei igual uma lhama e posso ter o direito de ficar imaginando qualquer coisa antes de pegar no sono. E estava indo muito bem, e você invade minha cabeça. Eu tava chegando na hora do solo onde eu ia colocar o pé no retorno sabe? Ai eu iria solar e tal e pãnãnãn

Pãnãnãn só fica legal em pensamento né? Já percebeu isso? Não fica legal você falando pra alguém: “ai eu fui lá e pãnãnãn..” né?

– É mesmo. Tipo: “Vixe Maria”. Se bem que a gente se fala isso toda hora… Do que a gente tava falando mesmo?

– Van Halen. Haha… Sabe, você precisa parar com isso, fica ai imaginando coisas, perde o sono, não acorda bem amanhã e depois fica reclamando do sono. E outra, que merda é aquela de piloto de Fórmula-1? Você dirige um Uno e não passa de 100 km. Você é o cara mais atencioso na estrada que eu conheço, e ai fica pensando que eu vou dar bola pra um piloto de merda de Fórmula-1? E ainda mais companheiro do Barrichello!?

– Eu to jogando um game de f-1. Da um desconto, influenciou sabe… E eu nem ando tão devagar assim, da outra vez eu peguei uns…

Coverdale!! E eu nem falei do Coverdale! Cara… Coverdale não da. Você já o viu no rock in rio né? Lógico que já. Porque você se imaginou igual a ele! Porra! Parece um traveco. O Harrison tudo bem, era bonito, tinha estilo… E como é que você pode misturar Coverdale com Harrison? Whitsnake é a pior banda do mundo! Eu odeio esses hardzinho anos 80. Essa é pior que aquela onde você imaginou a gente lá em Komodo, inclusive foi depois que você assistiu aquele documentário sobre os lagartos… não sei o nome daquele bicho grande lá…

Dragão de Komodo? ¬¬

– É… esse. Você fez amizade com um desses, e saia pela ilha andando com o bicho do lado. E ai surgia uns animais estranhos e você botava seu amigo pra lutar com eles. Tipo Pokémon. Caralho… Pokémon? E ainda teve a idéia de imaginar eu curtindo isso tudo.

– Tá, tá… entendi. Prometo que eu paro. Chega de Pokémon, chega de Coverdale, chega de Godzilla, chega de ninjas mutantes com braços gigantes…

– Caramba, eu lembro essa, foi a pior hahahaha

– Ta, pode voltar pra sua cabeça e vai dormir, ta tarde.

—-

– Oi gatinho! Legal essa sua barba de pirata ai, aquele navio é seu?

– Quem é essa!??

– Você ai de novo? Essa é a Mariana, ela gosta das minhas histórias. Não reclama.

– Quer dizer que você fica imaginando essas coisas com ela também ???

– Nem sempre, mas ela nunca interrompeu meu pré-sono pra reclamar que não gostava do Coverdale.

– Mas… sabe… hihi … eu até gosto dele. Eu até acho que você deveria imaginar uma história com o Coverdale cantando “Is This Love” enquanto o Godzilla invadia a cidade aqui ,ai você se transformava naquele X-Men que você curte e me salvava e tal…

– …

– Sério, e ai no final a gente poderia ir pra Lua! Isso! Moraríamos lá, naquela sua casa maluca que você projetou e tocaria violão o dia inteiro! Vai, iria ser legal! Né? … Ta me olhando assim por quê? Eu não to com ciúmes !! Eu com ciúmes… haha …. imagina… ainda mais dessas suas histórias malucas… eu com ciúmes…
– …
– Não tem como me imaginar com aquele braço mutante? Quero esganar essa Mariana ai.

aquela do Van Halen.

aquela de quando eu quis ser brother do Kerouac.

Rumei para o Sul. Diziam que naquelas bandas eu bem que me viraria melhor. Diziam também que qualquer coisa era melhor que aqui: Eu não discordei. Rumei sem pensar duas vezes quando amanheceu. Até parecia que nunca estive naquele lugar que agora era o tal “fim de viagem”. Mas eu gostava de me fazer de desentendido, de perdido. Apenas um motoqueiro querendo conhecer algum lugar novo; as pessoas gostavam disso, na verdade gostavam de contar suas histórias para pessoas estranhas, parecia que viveriam mais; as historias contadas sairiam daquele lugar e andariam sem rumo, quem sabe eu conte para alguém; era o que eles queriam; assim viveriam eternizados em alguma conversa por esse mundo.

Pegando a estrada, para trás ficou só aquela falsa alegria de que as coisas irão mudar: mentira. Elas nunca mudam. Você nasce com essa mentira encravada na sua cabeça. Culpa de quem? Mudanças só servem para que sua vida não se assemelhe a de uma formiga, indo e vindo, do ninho até a comida. Mas eu gostei de pensar assim: “se você for otimista, na luz sempre encontrará mais luz; se não for, vá dormir e só saia na madrugada. A luz não é sua amiga.” já dizia o velho com quem passei boas horas de conversa antes de abandoná-lo em frente a um armazém, junto com seu fumo e aquele cachorro cego; sim era cego: “ninguém precisa de olhos, nem ao menos esse ai (e apontou para o cachorro que continuava dormindo de barriga para cima) para ver que o mundo esta ai na frente. É só seguir. Cada um tem seu canto meu amigo.” continuava dizendo o velho em meio a tosses exageradas e aquele maldito cheiro de fumo. Gostei dele. E levei algumas historias suas na bagagem, esse velho iria viver muito.

Atravessei quase 200 km em meio a estradas vazias sem ao menos uma alma pedindo carona, ou seja lá o que deveria estar fazendo naquele “deserto” de cimento e florestas para todos os lados. A cada km rodado, eu imaginava o porque fiquei tão longe daquele lugar. O por que eu fiquei tanto tempo rodando por ai, o porque eu tinha medo de voltar. No final das contas nem eu sabia o que iria falar para ela. É, você pode ser o cara mais fodido do mundo, mas sempre terá “ela” te esperando em algum lugar. Você pode ser o cara mais sortudo do mundo, mas nunca terá algo tão valioso igual a “ela”; seja lá qual seu entendimento sobre coisas valiosas.

Numa imensidão de cores sobrepostas à exagerada ânsia de somente seguir e não parar naquele caminho ralo, solitário, ritmado e aclamado por algum senso de felicidade, remota sim, mas imensa; mesmo que o final, sempre aquele final estimado; mas efusivo e turvo que todos irão ter, independente do “como” e “quando; lembrei de como a encontrei, de como aquela casinha no final da praia me pareceu tão especial.

Ainda era outono e eu caminhava tentando aumentar mais ainda aquela amizade estranha com a ressaca da noite anterior; você nunca pode querer evita – lá, no máximo é estender a mão e cumprimentá-la, e torcer para que ela vá com sua cara e você não se incomode mais com isso. Ultimamente era só o que eu fazia; beber, trabalhar na única loja de discos da cidade; o que não quer dizer que durmo em dinheiro; escrever e entrar na noite com Chet Baker sussurrando alguma nota perdida, esvoaçada pelo ar e indo acabar em algum vazio no meio da rua. Avistei-a sentada na areia da praia, um vestido florido; ainda fazia calor naquelas bandas; cabisbaixa, com os cabelos presos lendo alguma coisa. Já tinha a visto certa vez pelas ruas; uma camiseta surrada do Rush em meio a calça jeans e alguns livros carregados em uma bolsa bege; provavelmente comprada em algum brechó da cidade. Gostei dela.

Então ali ela estava, e mesmo contrariado de ir até lá, eu deveria estar um trapo, simplesmente fui:
“- Você é o cara da loja de discos, não?” Levei um susto. Ela me conhecia. Respondi que sim. Sentei ao seu lado e ali ficamos umas boas horas conversando sobre música, livros: “E tem gente que fala mal da voz do Geddy Lee! Idiotas” dizia ela, e depois caia numa risada alta e leve de se ouvir. Passou algum tempo, continuamos nos vendo e após a primavera, começamos a namorar. Não suportei tamanha surpresa ao conhecer aquela menina que sorria e reclamava do trabalho.

Chegando à cidade, a primeira coisa que fiz foi ir ao seu encontro. Ela continuava morando na casinha da praia. Continuava linda e sorrindo. Continuava me fazendo tremer. Não disse uma palavra quando me viu, não perguntou como eu estava, como foi minha estadia no outro lado do país, nem me cercou de perguntas do porque não dava noticias a mais de três meses; simplesmente veio ao meu encontro e ficamos ali abraçados. Os dois sabiam que nada disso importava. Ao fundo, Billie Holiday declamava: “Someday we’ll meet, And you’ll dry all my tears, Then whisper sweet, Little things in my ear, Hugging and a-kissing, Oh, what I’ve been missing, Lover man, oh, where can you be?”

Eu não diria para ninguém que ela é diferente. Porque ela não é, e nunca vai ser. Ela é igual a todas que eu já tive e que eu quis; ou que todos os meus amigos tiveram. Ela é igual a todas que eu já sonhei em ter. Igual em sentimentos, em fotos, em desenhos em filmes, músicas, poemas… Mas ela tem uma diferença, no final de tudo; a diferença sempre acaba separando uns dos outros, mesmo sendo uma pinta no rosto, ou alguma preferência musical idiota. E acreditem, essa diferença eu bem conheço, diariamente; Mas ela sabe muito bem como andar do meu lado, ao lado das quedas; das várias e rotineiras quedas eu diria; dos saltos, das voltas, dos sorrisos, de algumas lágrimas, de alguns gritos, de algum ódio ou de pura sensação de vazio. Ela sabe muito bem o compasso do meu caminhar, ela anda do meu lado seja lá o que espera do outro lado da esquina.

Ela não é diferente de ninguém, mas ela faz toda a diferença.

aquela de quando eu quis ser brother do Kerouac.

aquela do bilhete.

– Olha, desculpa… não sei o que me deu.

– Fica tranqüilo. Não foi o fim do mundo. Eu já te disse o porque disso e aquilo. É assim que funciona, pelo menos comigo é.

– Eu sei. Eu me senti abrindo o presente de natal um dia antes, e  não gostei nada do que vi; e que deveria ter aberto no dia certo, porque ai talvez o presente me parecesse… tipo,  melhor. Mas eu te disse. Eu te expliquei tudo. Porque é tão difícil você entender certas coisas? Chega a ser engraçado.

– Presentes… me lembrou aquela camisa listrada que você ganhou da sua tia, ai nem dois meses antes faria ela parecer melhor.

– Não mude de assunto.

– Haha… ta bom. Não sei.  Fazem o que? Cinco anos? Seis? E algo nunca aconteceu. As vezes eu penso que nem tem que acontecer nada. Que a gente pensa demais, imagina demais.

– Vai ver é assim que funciona. Coisas demais sempre acabam sendo de menos. Eu deveria ter levado a sério quando ouvi: “Hey you’ve got to hide your love away” antes de sair do carro.

– Lá vem você com esses Beatles… haha. Você sabe que eu não conheço e fico perdida.  Sabe… na verdade eu sempre fico perdida quando penso na gente, eu nunca sei como é.. ahm.. eu nunca sei o que vou encontrar depois daquela porta ali. Eu odeio isso. E sabe o que eu mais odeio? Você nunca ta sozinho, você sempre tem essa “mania” de nunca ficar sozinho. Sempre apaixonado, sempre com alguém, sempre isso e aquilo. Até parece que você não tem tempo pra ser “solteiro”. Eu odeio isso.

– Sabe de uma coisa? Sabe o que eu odeio?

– Meu cabelo? Ta curto né? Não to me sentindo bem… Ta! parei! não me olha assim.. haha.. continua.

– Eu odeio o jeito que você se esquiva das coisas. Eu odeio o jeito que você tem de simplesmente parecer desistir. Eu odeio o teu jeito de sempre querer pensar, de querer entender tudo antes de simplesmente abrir os olhos e ver o que realmente ta acontecendo. Eu odeio esse teu medo de mim, porque sempre parece que só acontece comigo; se fosse outro seria bem mais simples. Odeio quando você simplesmente não fala nada. Meu, eu odeio o teu jeito de mudar de mundo tão facilmente e me deixar perdido sem saber pra onde você foi. É, tu me irrita.

– hahaha… Você deveria falar isso bravo, não rindo e com essa calmaria.

– É né?

– É sim.

– …

– …

– E sabe o que eu mais odeio? Eu até tenho isso anotado aqui. Espera ai… ta na minha carteira… Juntei várias coisas, copiei e adaptei. Eu vou ler porque se eu for falar, eu vou rir. E você vai estragar tudo. Então fique calada e ouça.

– De novo esses papeizinhos ai… haha… isso me da frio na barriga

– O que eu mais odeio é que: ” … eu não vou ficar aqui para sempre. Eu não serei aquele cara legal e atencioso que você acostumou conhecer. Não para sempre. Eu não vou ser mais aquele que usa tênis sem meias, que você viu aquela vez e achou bonito. Dificilmente eu vou continuar sendo engraçado e daqui para frente, é bem provável que eu vire um ranzinza. Um ranzinza, chato, reclamão e briguento. É bem provável que eu vire isso. Porque todo mundo muda. todo mundo tem que seguir um caminho. Eu nem mesmo sei como eu sou hoje; eu nem mesmo sei se estivesse com você isso tudo seria diferente. Eu não vou pensar em você para sempre. Porque você não é a única no mundo.  Pensar, pensar e pensar. Não para sempre. Mas para sempre eu vou achar que algo sempre faltou. Eu sempre vou pensar que deveria ser diferente. Que os meus “para sempre” poderiam não vir mais com um “não” na frente. E fosse somente “para sempre”: “Para sempre feliz, para sempre tranqüilo, para sempre com você…”. Eu sei, nada é para sempre. Mas você poderia ser, se o “para sempre” seu fosse mais simples do que você pensa que é. A gente costuma pensar demais quando alguém some, ou não quer aparecer. Mas a gente esquece que quando quer que alguém chegue, a gente faz de tudo; até pensa em pensar de menos, pensa em ser demais. A gente até vira poeta, até vira príncipe encantado, e sendo assim, quando a gente quer que alguém chegue, a gente constrói até um castelo.”

– … Se eu contasse isso tudo que aconteceu agora para alguém… ahm… diriam que eu sou muito imbecil… né?

– Provavelmente. Mas se você não fosse assim, que graça teria?

aquela do bilhete.

aquela do Beatles.

– Pensei que não viria mais…

– É, fiquei pensando nisso também.

– Que você não viria?

– É. Não sei se deveria, sei lá… é que parece que ta tudo indo tão rápido sabe, que as vezes acho que você vai pular fora.

– …

– Porque ta rindo? sei lá, eu acho…

– É você que vai muito rápido. Já chegou falando tudo isso. E eu diria que acha demais. Eu to aqui, não estou?

– É. E pelo que eu te conheço, você poderia ta lá naquela sua aula estranha de yoga. Yoga pra cá, yoga pra lá…

– haha… é verdade. então. o que vamos faz… ei! o que é esse papelzinho ai?

– Ahm… nada não. só papel e…

– Me mostra, deve ser um daqueles poemas/frases/histórias suas, nunca sei ao certo o que é. São estranhas. Por mais que eu sei que nunca vai sair um pra mim, eu gosto… haha. Vai, me mostra ai…

– Ahm… na verdade é pra você.

– …

– Assim, não fala nada. Sério. Não é nada demais, é bem idiota, mas eu vou falar. Ai no final a gente sai desse banco em silêncio, segue até o bar… e… … e pede batatinha frita, ou… ou outra coisa e inventa algum assunto novo. Não precisa falar nada. Só ouve tá?

– … ok

– Bem… ahm… assim:

” Eu vou.

Eu vou andar, eu vou.

Quem sabe chegar num ponto, onde eu possa te dizer aquilo.

Quem sabe chegar num ponto onde eu possa pensar em você sem tremer, só ser você.

Chegar e ficar sensato, sem correr, sem pular, sem pensar.

Eu vou tentar ser aquilo que eu sempre quis, mas não consegui.

Eu vou até plantar flores, e eu vou colher saudades suas.

Eu vou ser calmo, como manhã de domingo. Vou ser calmo como eu não sou.

Vou te pegar pelo braço, te levar até o final, e recomeçar o início do que eu quero, para nunca ter fim. Só nós dois.

Eu vou te olhar, e te cantar: “Close your eyes and I’ll kiss you!” sem parecer brega e idiota.

Te falar que é só você, sem importar quem já foi. Sem perceber que alguém já foi. Que alguém foi. Quem mesmo?

E pensar quem foi mais, quem te quis mais, quem você foi mais, quem te fez brilhar. E te fazer esquecer tudo isso.

E mesmo que seu coração se apague, para tudo, para todos, para sempre, eu vou ser quem ele vai ver, quem ele vai sorrir de novo.

Eu vou apenas sentar. E te olhar. E te dizer aquilo.

…e se quiser, eu vou te amar.

… porque eu vou.”

– …

– …

– Eu gosto tanto de Beatles, sabe…

aquela do Beatles.

aquela de quando você pensa que…

-Alô?

– Você estava certa… Eu deveria ter feito tudo diferente, deveria ter ido atrás, não ter mandado apenas recados nem nada. Fui injusto.

–  Ta falando do que?

– Sabe, eu queria ter falado tudo. Sempre fui assim, deixo as coisas a deriva, deixo elas irem, deixo fluir pensando que deve ser assim… e no fim… droga!

– Ta mas…

– Sei que você não é a culpada. Você tentou, você disse que daria tempo ao tempo, você me disse que aceitaria o que eu decidi, assim, sem reclamar. Apenas assentiu, e me falou “Calma, é assim mesmo. Vai dar certo”. Mas não está!

– Você bebeu?

– Não to bêbado, eu só queria saber porque tudo é assim, porque parece que que me sinto um cachorro que acabou de cair da mudança. Perdido. Aonde tá meu apoio? Aonde tá minha parede pra eu poder me apoiar e ficar ali a minha vida inteira?

– Olha, você não precisa pedir desculpas. Eu te disse, as coisas se resolvem. Eu to aqui, não vou fugir nem nada. Mas se quiser conversar sobre nós eu…

– Do que você ta falando?

– Do que VOCÊ ta falando!?

– Meu terno. Que mandei lavar. Voltou todo manchado! Deveria ter lavado eu mesmo. Mandado pra minha mãe, sei la… Você pensou que era o que?

– Ah, nada não. Só pensei demais…

aquela de quando você pensa que…