aquela do mundo paralelo.

Fui dormir. Normalmente eu não sonho. Durmo como uma pedra. Mas aquele dia…

Lembro que eu acordei e o sol ainda não estava totalmente a vista. Talvez nascendo pensei. Pensei errado.Virei para o lado e vi como que estampado no relógio digital 18:23. Levei um susto. Pulei da cama, olhei o celular, a mesma coisa, corri para a janela e então percebi: era fim da tarde. Não poderia ser! Eu nem tinha ido trabalhar!

Deveria ainda estar sonhando e tudo mais. Foi quando a campainha tocou, sai correndo como um louco para abrí-la, e foi quando levei um susto maior ainda. Era uma mulher com uma criança no colo, eu não conseguia visualizar o rosto da mulher. Parecia desfocado, mesmo ela estando a um metro de mim. Mas a criança sim, era pequena, 2 a 3 anos. Loira, olhos castanhos e tinha um sorriso lindo. Ela me fitava com uma simpatia. Aquele sorriso… lembrava alguém. A mulher não falou muita coisa, mas a única frase que entendi foi

” – As nove, amanhã, passo pega-lá. Até mais.”

E foi assim que meu dia começou. Acordei no final do dia, com uma criança que eu não conhecia, uma mulher sem rosto e como se não bastasse tudo isso, aquele clichê básico surgiria, algo ainda estava por vir:

– Papai!

Levei um susto. Cai. Sentei. Rodopiei. Ela me chamou de pai! Porra! o que é isso? Por um momento olhei em volta, pedindo em vão alguma resposta. Mas ela me lembrava alguém… Aquele sorriso, aqueles olhos. E ela não tinha nada haver com aquela mulher de antes, mesmo que eu não tivesse visto seu rosto, mas era algo… que eu não sabia o que era. Por instinto, peguei-a no colo e me senti feliz. Me senti estranhamente protegendo alguém. Junto a ela, havia uma carta.

Não lembro de a tal moça ter me dado. Abri a carta e levei outro susto.
Assim, em instantes descobri quatro coisas:

1) Eu era pai de uma criança de 3 anos, ela se chamava Júlia.
2) Eu era separado da antiga mulher; Mulher? Eu tinha mulher?
3) Era o “final de semana com o papai”
4) Era meu dia perfeito.

No final, com uma letra meio caída e bem arredondada estava escrito:

“Aproveite. Faça simplesmente o que achar que tenha que ser feito. Pouco tempo será, e
só. Quando sentir que nada mais falta, perceberá o final. Mas será do seu jeito. Do seu
jeito”.

Ainda estava ensolarado o dia. Estava quente, mas com aquela brisa de fim da tarde. Normalmente nesse horário eu saio do trabalho e volto para casa. Sempre foi assim. Casa, trabalho, casa… por anos a fio. Sempre morei sozinho,
nunca tive relacionamentos que duraram mais que cinco meses. É, eu sempre conto eles. Parece fato, cinco meses, termina. Nunca reclamei, muito; sempre achei melhor pensar assim: “Não faz meu tipo”, “Ah, ela não gostava de Caetano..
Veja bem, não gostar de Caetano? Antiquado? O Caetano?”, “Ela gosta de Los Hermanos? Pfff”. Eu não gostava de festas. Odiava multidão. Odiava mais ainda o calor do mês de dezembro. Odiava o Natal e fim do ano. Mas eu gostava de
outras coisas sim, mas não sei por que, elas sempre pareceram menos importantes do que as coisas que eu realmente odiava. E então, durante anos, minha vida foi isso, e agora, eu sou pai, tenho uma criança de 3 anos nos meus
braços, me olhando com uma cara que mistura cinismo e algo como fome e sono, se é que pode existir descrição assim.

Comecei à olha-la, até então, o que poderia ser simples, se tornou a coisa mais estranha do mundo. Ela sorriu e me abraçou. Eu não sabia o que fazer. Se colocava ela no sofá, ou se desse um abraço; não, eu posso quebrar uma costela
dela; se desse um sorriso; muito babaca; e se eu pedisse algo?; mas ela fala? com 3 anos?; Simplesmente fiquei ali, parado. Tempo depois, coloquei-a no chão, e procurei algo para dar a ela de comer. E lá se iam meus chocolates.

Eu nunca gostei de crianças, sempre me assustaram. Quando havia alguma no recinto, eu ficava quieto, não fazia contato visual, não me mexia, não espirrava, e respirava o mínimo possível para que ela não soubesse que eu
estava li. Nunca deu certo. Eu era o primeiro que a criança olhava, o primeiro que ela se dirigia quando estava engatinhando, o primeiro que ela apontava, o primeiro que ela chegava perto, o primeiro que ela dizia “Tio”, e eu ali, fazendo que estava lendo o jornal enquanto olhava ela por cima dos óculos; tentando ser esperto, não mostrando que estava dando atenção a dita criança; em uma atitude imensamente idiota para um adulto; ela sempre estava me olhando.
Sempre.

Depois do quarto chocolate, Júlia pronunciou algo como “Aba” ou “haba”. Peguei um copo, enchi de água e dei a ela. É claro, ela derrubou tudo. Dei outro copo, ela bebeu, e sorriu. Gargalhou alto. Eu comecei a rir, não sei por que. Ela
riu mais e eu fiquei ali. Aquele sorriso…

Foi quando tocou a campainha. O que mais poderia acontecer hoje? Quando a abri , algo que à tempos não acontecia, aconteceu. Frio na barriga.

Sempre quando sinto isso, é relacionado a multidões, conhecer pessoas e tudo aquilo que um tímido em potencial sente. Mas quando relacionava-se a algumas pessoas, mulheres, que era o que estava acontecendo, o significado era:

“Ahh, é ela…”

Era loira, quase da minha altura os seus cabelos estavam presos com um laço. Vestia calça jeans, tênis e uma blusa regata branca. Eu nunca esqueci sua voz. Ela dizia tão bem algumas palavras, tipo “Você”, “Árvore”, “Vento”,
“Polícia”; com aquele “u” acentuado no lugar do “o”; “veremos” e tantas outras. Eu sempre me perguntei o porque ficava reparando nisso nas pessoas, mas a voz dela…

Ela sorria. Ela tinha um sorriso meio… meio… um sorriso muito lindo por assim se dizer. Um daqueles sorrisos que qualquer pessoa pensaria em escrever um poema sobre ele, ou não…

Ela foi entrando e dizendo: – “Quase não chego a tempo, ônibus atrasado e tudo mais. Mas o passeio hoje vai ser muito bom. Achei estranho você me convidar.” e sorriu. Aquele sorriso…

Ela andou, foi até a criança, sentou do seu lado. No apartamento, o cheiro do seu perfume se misturou com os de milhares de incensos que eu já havia acendido pela casa por anos a fio. Mas o dela ficou acima de tudo.

Júlia sentou-se no seu colo, como se já a conhecesse há tempos. Começou a brincar com ela e as duas pareciam amigas de longa data. Eu fiquei da porta, observando aquilo. Era estranho. Uma eu nunca tinha visto na minha vida, e ao
mesmo tempo, parecia que conhecia desde sempre; e a outra, mesmo sabendo de tudo, ou pelo menos de quase tudo, naquele momento, parecia outra pessoa. Parecia que aquilo estava indo, estranhamente, de um jeito que eu sempre quis,
mesmo nunca tendo imaginado isso.

Reli a carta: “Aproveite. Faça simplesmente o que achar que tenha que ser feito. Pouco tempo e só. Quando sentir que nada mais falta, perceberá o final. Mas será do seu jeito. Do seu jeito”.

Do meu jeito. Será? Quando iria divagar mais a respeito, a mulher disse:

– Então, vamos? Penso que primeiro devemos ir ao parque. Horário de
Verão tem suas vantagens, pelo menos algo de bom ele tem de ter. Levamos
Júlia comer algo lá mesmo, andamos pelo parque. Ela vai gostar, ela sempre
gosta de…”

E ela foi falando, foi pegando Júlia no colo, como se fosse normal aquilo, como que se aquela cena, já tivesse se repetido por várias e várias vezes. Mas ela falou que achou estranho eu convida – lá, pensei. Então ela não vinha muito
aqui, não saia muito comigo e muito menos com minha “suposta” filha. Nada estava se encaixando. Pensei em parar tudo, perguntar o que realmente estava acontecendo, quem era ela? Quem era essa criança? Que carta era essa?

No momento em que iria abrir a boca, algo me parou. Parecia que ela foi tampada, não fisicamente, mas algo me fez ver que aquilo era o que menos importava. Que aquilo era ínfimo perto do que estava acontecendo, que eu teria
muita coisa para pensar e principalmente, muita coisa a mais para viver. Naquele momento eu percebi, que aquele dia poderia ser sim um dia que eu sempre quis.

Saímos, Júlia no colo dela, eu ao lado. Passamos na frente de uma loja de discos de vinil. Achei estranho, nunca vi ela por ali. Acima, duas caixas de som entonavam: “Come down off your throne, And leave your body alone…” na voz de
Clapton.

Júlia olhou para aonde originava o som, e sorriu. Sempre gostei dessa música.

Passamos por lojas de brinquedos que nunca tinha notado. Júlia parecia atenta a tudo, o tempo inteiro, e sorria. Sorria muito. A mulher sorria junto, gargalhava alto e eu ficava ali, observando-as e com um estranho sentimento.
Passamos por algumas ruas, algumas calçadas, olhamos vários pássaros sobrevoando algumas árvores ao longe. O sol brilhava intensamente, como se fosse fazer aquilo pela eternidade, mesmo sabendo que em poucas horas iria
dar o lugar para a lua. As pessoas caminhavam sem rumo, pareciam que estavam ali somente para servir de fundo ao nosso passeio.

Chegando ao parque, fomo ao zoológico que existia ali. Sempre gostei daquele parque, não necessariamente por ser um parque, mas sempre me interessei pelos animais que ali estavam. Cervos, macacos, pássaros, insetos…
Eram inúmeros, mas o que sempre me chamou atenção foi apenas um deles, um Gorila.

No centro do parque existia uma fonte, não que realmente ela existia na vida real, mas eu sempre quis que ela estivesse ali, e naquele dia, a fonte estava exatamente aonde eu sempre imaginei. Ao redor dela, como se fosse uma
fogueira onde todos se sentavam ao redor dela para se aquecer e contar histórias, se colocavam várias jaulas, de diversos animais.

O Gorila era um deles, ele já era velho no parque, desde a primeira vez que fui ali, ele sempre existiu. Na maioria das vezes sentado, olhando fixamente para algo, as vezes andava para um lado e outro, sempre sério, intocável e
imponente em sua jaula, mas ao mesmo tempo parecia acuado, um tanto triste. Sempre gostei dele, nunca pareceu que alguém poderia saber o que ele estava para fazer, vivia ali, talvez até gostasse, mas mesmo estando preso, poderia
estar aonde quisesse. Sempre pensei assim.

Estranhamente, Júlia se interessou por ele, falava toda hora “acaco” e apontava para tal. Era estranho, a menina parecia compartilhar vários dos meus gostos, até preferindo Pepsi ao invés de Coca, mas talvez isso, pensei eu, fosse alguma influência da tal “mãe sem rosto”.

Ficamos vários minutos olhando para a jaula do velho gorila. Parecíamos que estávamos lá, os três, pelo mesmo objetivo, divagando sobre as mesmas coisas. A mulher estava no meu lado, eu queria abraçá-la, minha barriga ainda
tinha aquele “frio”, principalmente quando ela olhava para mim. Sempre nos olhos. Sempre sorrindo. Aquele sorriso…

Depois de um tempo, fomos caminhar pelo parque. Júlia arriscava alguns passos logo à frente, nós dois íamos atrás, cuidando de qualquer queda que ela certamente teria.

Andamos por várias horas, o sol estranhamente não diminuíra de intensidade. Íamos conversando sobre música, estudos, trabalho.. Ela me contava os benefícios de certas comidas chinesas para a saúde, falava da
importância do cálcio e das proteínas, ela falava de um jeito engraçado “proteínas”. Fiquei sabendo que o brócolis previne algo como osteoporose e úlceras. Me contou das desavenças com amigas, que gostaria de viajar sem
destino – “simplesmente ir” disse ela; que preferia chocolate preto ao branco, que acordar cedo é a pior coisa do mundo, que preferia Caetano do que Gilberto; aqui eu tive que concordar; que prefere dormir com chuva, que se
irritava facilmente com as pessoas mas não saberia nada se não fosse as mesmas, que acha que deveria gastar o dinheiro em coisas mais úteis, em vez de simplesmente roupas e comidas.

Eu achava tudo engraçado. Ela me fazia bem. Ela era alegre e eu nunca gostei muito de pessoas alegres, sempre me passaram falsidade: “Nunca alguém pode ser alegre todo dia” pensava eu. Mas dela vinha algo diferente, não sei se
era o tempo, o ar, o fim da tarde, mas sei que era ela. Esqueci de tudo que me incomodava, naquela hora eu simplesmente andava e me sentia bem. Ela era tão leve.

Encontramos um lugar com várias árvores e ali sentamos. Compramos cachorros-quentes e me pareceu a melhor comida do mundo. Ali perto avistei um rio, onde várias pessoas caminhavam em volta e andavam de pedalinhos no
seu interior. Ao nosso lado, estava sentado um homem. Cabelos compridos, calças e camisa preta empunhando um violão.
Ali sentado, olhei para as duas e pensei na carta. Seria mesmo? Que ali seria o meu dia perfeito? Que ali, por pouco tempo, viveria o que realmente sempre quis? Mas eu nem gosto de cachorro-quente. Mas tudo era perfeito. O
homem do violão começa a tocar os primeiros acordes de “Black Bird” dos Beatles.

Pouco depois, já seguindo as ruas para retornar para casa, comecei a pensar no que realmente seria meu dia perfeito.

Sempre pensei em algumas coisas: ter muito dinheiro, tocar relativamente melhor gaita de boca junto e melhor que o Jammes Cotton, não pagar absolutamente nada no que iria comer naquele dia, não trabalhar, ser
promovido, Juliane Moore me ligando pedindo como estou; mas nada daquilo estava acontecendo. Era tudo muito simples, muito normal. Eu nem ao menos sabia o nome da mulher que estava do meu lado, mas eu conhecia ela. Eu conhecia de algum lugar. Eu já tinha conversado com ela, já tinha feito rir, mas não lembrava quem era. Eu nunca me imaginei pai, ainda mais sendo pai separado. Nada daquilo fazia sentido, mas tudo se encaixava de alguma forma.

Chegando em casa, Júlia já adormecia no meu colo, levei-a até meu quarto e notei que existia um berço do lado de minha cama. Nem perdi tempo tentando encontrar algum motivo de aquilo estar lá. Deitei-a e beijei-lhe a face,
ela meio que agradecendo deu um pequeno sorriso, mesmo dormindo. Fiquei observando-a por um bom tempo. Uma filha. Será que sempre quis ser pai mas nunca soube? Será que aquela mulher na sala, seria o que faltava para uma
família real? Nunca gostei da palavra família, sempre me pareceu “família” demais, ficar falando e caracterizando-a por ai, como se fosse elemento chave na felicidade das pessoas. Nunca gostei de generalizar. Mas por um momento, ali,
parado e olhando para ela, eu quis ter uma, e pensando bem, eu estava tendo
uma naquele momento.

Voltei para a sala e a mulher estava sentada no sofá, me fitando. Estremeci. Fiquei parado diante dela, sem saber o que fazer. Só pude devolver o olhar. Ela levantou, foi até mim e me abraçou. Ficamos ali, parados por vários minutos. Eu não sabia bem o que fazer, mas sabia que aquilo tinha de ser assim.

Como parecendo premeditado, eu já não estranhara mais nada desde então, meu velho aparelho de vinil, sozinho, começa a embalar uma canção. Chet Baker declama “Come Rain or Come Shine” parecendo que estava ali, perto dos vasos de orquídeas, cantando exclusivamente para nós. Começamos a dançar. Nunca fui bom nisso, mas me sai bem.

Acompanhando a melodia da música, dançamos e a sala onde estávamos sumiu, o mundo pareceu ser apenas “algo”. Deslizamos pelo chão, como se fosse a única coisa que importava. Esquecemos do tempo, vagamos sobre ele
sem ao menos nos dar conta que aquilo poderia ser apenas um sonho.

“I’m with you always. I’m with you rain or shine…” Dizia Chet.

Eu à olhava e me sentia feliz. Ela me fazia tão bem e sorria. Aquele sorriso. Naquele momento eu percebi que sempre a quis e que sempre a procurei em todos os cantos, em todas as conversas sobre a mulher certa, em todos os sonhos e todos os segredos. Ela era o para sempre, o ar que nunca cessa.
E eu a beijei. Ela era tão leve.

“…Pouco tempo e só. Quando sentir que nada mais falta, perceberá o
final. Mas será do seu jeito. Do seu jeito”.

E nada mais parecia que poderia mudar aquilo, que poderia melhorar algo, era tudo o que inconscientemente eu já quis. Como uma nuvem quando encobre aquele sol, tudo escureceu. E tudo acabou.

Acordei em minha cama, olhei para o lado que já não mais existia o berço de Júlia. Pensei em ir para a sala, correndo, mas sabia que não encontraria nada. Fiquei deitado, fitando o teto. Não somente estava feliz, mas sabia que algo
poderia ser feito, que sempre a uma outra direção a se tomar.

Levantei, fui à sala e segui até a sacada. Lá fora chovia fraco.
Vindo de uma janela do prédio vizinho, Sinatra cantava:

“…So I’ll be the fella, the kid with the small umbrella…
If you will be the girl, the girl who saved her love for a rainy day…”

aquela do mundo paralelo.