aquela do bilhete.

– Olha, desculpa… não sei o que me deu.

– Fica tranqüilo. Não foi o fim do mundo. Eu já te disse o porque disso e aquilo. É assim que funciona, pelo menos comigo é.

– Eu sei. Eu me senti abrindo o presente de natal um dia antes, e  não gostei nada do que vi; e que deveria ter aberto no dia certo, porque ai talvez o presente me parecesse… tipo,  melhor. Mas eu te disse. Eu te expliquei tudo. Porque é tão difícil você entender certas coisas? Chega a ser engraçado.

– Presentes… me lembrou aquela camisa listrada que você ganhou da sua tia, ai nem dois meses antes faria ela parecer melhor.

– Não mude de assunto.

– Haha… ta bom. Não sei.  Fazem o que? Cinco anos? Seis? E algo nunca aconteceu. As vezes eu penso que nem tem que acontecer nada. Que a gente pensa demais, imagina demais.

– Vai ver é assim que funciona. Coisas demais sempre acabam sendo de menos. Eu deveria ter levado a sério quando ouvi: “Hey you’ve got to hide your love away” antes de sair do carro.

– Lá vem você com esses Beatles… haha. Você sabe que eu não conheço e fico perdida.  Sabe… na verdade eu sempre fico perdida quando penso na gente, eu nunca sei como é.. ahm.. eu nunca sei o que vou encontrar depois daquela porta ali. Eu odeio isso. E sabe o que eu mais odeio? Você nunca ta sozinho, você sempre tem essa “mania” de nunca ficar sozinho. Sempre apaixonado, sempre com alguém, sempre isso e aquilo. Até parece que você não tem tempo pra ser “solteiro”. Eu odeio isso.

– Sabe de uma coisa? Sabe o que eu odeio?

– Meu cabelo? Ta curto né? Não to me sentindo bem… Ta! parei! não me olha assim.. haha.. continua.

– Eu odeio o jeito que você se esquiva das coisas. Eu odeio o jeito que você tem de simplesmente parecer desistir. Eu odeio o teu jeito de sempre querer pensar, de querer entender tudo antes de simplesmente abrir os olhos e ver o que realmente ta acontecendo. Eu odeio esse teu medo de mim, porque sempre parece que só acontece comigo; se fosse outro seria bem mais simples. Odeio quando você simplesmente não fala nada. Meu, eu odeio o teu jeito de mudar de mundo tão facilmente e me deixar perdido sem saber pra onde você foi. É, tu me irrita.

– hahaha… Você deveria falar isso bravo, não rindo e com essa calmaria.

– É né?

– É sim.

– …

– …

– E sabe o que eu mais odeio? Eu até tenho isso anotado aqui. Espera ai… ta na minha carteira… Juntei várias coisas, copiei e adaptei. Eu vou ler porque se eu for falar, eu vou rir. E você vai estragar tudo. Então fique calada e ouça.

– De novo esses papeizinhos ai… haha… isso me da frio na barriga

– O que eu mais odeio é que: ” … eu não vou ficar aqui para sempre. Eu não serei aquele cara legal e atencioso que você acostumou conhecer. Não para sempre. Eu não vou ser mais aquele que usa tênis sem meias, que você viu aquela vez e achou bonito. Dificilmente eu vou continuar sendo engraçado e daqui para frente, é bem provável que eu vire um ranzinza. Um ranzinza, chato, reclamão e briguento. É bem provável que eu vire isso. Porque todo mundo muda. todo mundo tem que seguir um caminho. Eu nem mesmo sei como eu sou hoje; eu nem mesmo sei se estivesse com você isso tudo seria diferente. Eu não vou pensar em você para sempre. Porque você não é a única no mundo.  Pensar, pensar e pensar. Não para sempre. Mas para sempre eu vou achar que algo sempre faltou. Eu sempre vou pensar que deveria ser diferente. Que os meus “para sempre” poderiam não vir mais com um “não” na frente. E fosse somente “para sempre”: “Para sempre feliz, para sempre tranqüilo, para sempre com você…”. Eu sei, nada é para sempre. Mas você poderia ser, se o “para sempre” seu fosse mais simples do que você pensa que é. A gente costuma pensar demais quando alguém some, ou não quer aparecer. Mas a gente esquece que quando quer que alguém chegue, a gente faz de tudo; até pensa em pensar de menos, pensa em ser demais. A gente até vira poeta, até vira príncipe encantado, e sendo assim, quando a gente quer que alguém chegue, a gente constrói até um castelo.”

– … Se eu contasse isso tudo que aconteceu agora para alguém… ahm… diriam que eu sou muito imbecil… né?

– Provavelmente. Mas se você não fosse assim, que graça teria?

aquela do bilhete.