aquela de quando eu quis ser brother do Kerouac.

Rumei para o Sul. Diziam que naquelas bandas eu bem que me viraria melhor. Diziam também que qualquer coisa era melhor que aqui: Eu não discordei. Rumei sem pensar duas vezes quando amanheceu. Até parecia que nunca estive naquele lugar que agora era o tal “fim de viagem”. Mas eu gostava de me fazer de desentendido, de perdido. Apenas um motoqueiro querendo conhecer algum lugar novo; as pessoas gostavam disso, na verdade gostavam de contar suas histórias para pessoas estranhas, parecia que viveriam mais; as historias contadas sairiam daquele lugar e andariam sem rumo, quem sabe eu conte para alguém; era o que eles queriam; assim viveriam eternizados em alguma conversa por esse mundo.

Pegando a estrada, para trás ficou só aquela falsa alegria de que as coisas irão mudar: mentira. Elas nunca mudam. Você nasce com essa mentira encravada na sua cabeça. Culpa de quem? Mudanças só servem para que sua vida não se assemelhe a de uma formiga, indo e vindo, do ninho até a comida. Mas eu gostei de pensar assim: “se você for otimista, na luz sempre encontrará mais luz; se não for, vá dormir e só saia na madrugada. A luz não é sua amiga.” já dizia o velho com quem passei boas horas de conversa antes de abandoná-lo em frente a um armazém, junto com seu fumo e aquele cachorro cego; sim era cego: “ninguém precisa de olhos, nem ao menos esse ai (e apontou para o cachorro que continuava dormindo de barriga para cima) para ver que o mundo esta ai na frente. É só seguir. Cada um tem seu canto meu amigo.” continuava dizendo o velho em meio a tosses exageradas e aquele maldito cheiro de fumo. Gostei dele. E levei algumas historias suas na bagagem, esse velho iria viver muito.

Atravessei quase 200 km em meio a estradas vazias sem ao menos uma alma pedindo carona, ou seja lá o que deveria estar fazendo naquele “deserto” de cimento e florestas para todos os lados. A cada km rodado, eu imaginava o porque fiquei tão longe daquele lugar. O por que eu fiquei tanto tempo rodando por ai, o porque eu tinha medo de voltar. No final das contas nem eu sabia o que iria falar para ela. É, você pode ser o cara mais fodido do mundo, mas sempre terá “ela” te esperando em algum lugar. Você pode ser o cara mais sortudo do mundo, mas nunca terá algo tão valioso igual a “ela”; seja lá qual seu entendimento sobre coisas valiosas.

Numa imensidão de cores sobrepostas à exagerada ânsia de somente seguir e não parar naquele caminho ralo, solitário, ritmado e aclamado por algum senso de felicidade, remota sim, mas imensa; mesmo que o final, sempre aquele final estimado; mas efusivo e turvo que todos irão ter, independente do “como” e “quando; lembrei de como a encontrei, de como aquela casinha no final da praia me pareceu tão especial.

Ainda era outono e eu caminhava tentando aumentar mais ainda aquela amizade estranha com a ressaca da noite anterior; você nunca pode querer evita – lá, no máximo é estender a mão e cumprimentá-la, e torcer para que ela vá com sua cara e você não se incomode mais com isso. Ultimamente era só o que eu fazia; beber, trabalhar na única loja de discos da cidade; o que não quer dizer que durmo em dinheiro; escrever e entrar na noite com Chet Baker sussurrando alguma nota perdida, esvoaçada pelo ar e indo acabar em algum vazio no meio da rua. Avistei-a sentada na areia da praia, um vestido florido; ainda fazia calor naquelas bandas; cabisbaixa, com os cabelos presos lendo alguma coisa. Já tinha a visto certa vez pelas ruas; uma camiseta surrada do Rush em meio a calça jeans e alguns livros carregados em uma bolsa bege; provavelmente comprada em algum brechó da cidade. Gostei dela.

Então ali ela estava, e mesmo contrariado de ir até lá, eu deveria estar um trapo, simplesmente fui:
“- Você é o cara da loja de discos, não?” Levei um susto. Ela me conhecia. Respondi que sim. Sentei ao seu lado e ali ficamos umas boas horas conversando sobre música, livros: “E tem gente que fala mal da voz do Geddy Lee! Idiotas” dizia ela, e depois caia numa risada alta e leve de se ouvir. Passou algum tempo, continuamos nos vendo e após a primavera, começamos a namorar. Não suportei tamanha surpresa ao conhecer aquela menina que sorria e reclamava do trabalho.

Chegando à cidade, a primeira coisa que fiz foi ir ao seu encontro. Ela continuava morando na casinha da praia. Continuava linda e sorrindo. Continuava me fazendo tremer. Não disse uma palavra quando me viu, não perguntou como eu estava, como foi minha estadia no outro lado do país, nem me cercou de perguntas do porque não dava noticias a mais de três meses; simplesmente veio ao meu encontro e ficamos ali abraçados. Os dois sabiam que nada disso importava. Ao fundo, Billie Holiday declamava: “Someday we’ll meet, And you’ll dry all my tears, Then whisper sweet, Little things in my ear, Hugging and a-kissing, Oh, what I’ve been missing, Lover man, oh, where can you be?”

Eu não diria para ninguém que ela é diferente. Porque ela não é, e nunca vai ser. Ela é igual a todas que eu já tive e que eu quis; ou que todos os meus amigos tiveram. Ela é igual a todas que eu já sonhei em ter. Igual em sentimentos, em fotos, em desenhos em filmes, músicas, poemas… Mas ela tem uma diferença, no final de tudo; a diferença sempre acaba separando uns dos outros, mesmo sendo uma pinta no rosto, ou alguma preferência musical idiota. E acreditem, essa diferença eu bem conheço, diariamente; Mas ela sabe muito bem como andar do meu lado, ao lado das quedas; das várias e rotineiras quedas eu diria; dos saltos, das voltas, dos sorrisos, de algumas lágrimas, de alguns gritos, de algum ódio ou de pura sensação de vazio. Ela sabe muito bem o compasso do meu caminhar, ela anda do meu lado seja lá o que espera do outro lado da esquina.

Ela não é diferente de ninguém, mas ela faz toda a diferença.

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aquela de quando eu quis ser brother do Kerouac.